quinta-feira, 9 de outubro de 2014

CRÔNICA DO ÔNIBUS em livro

E-mail recebido: Em 21 de outubro de 2014, Olá, Dr. Marco Aurélio, adorei suas crônicas! São bem interessantes e revelam com muito bom humor e espontaneidade coisas do nosso cotidiano, retratando, ainda, como você é observador não se atendo somente ao exterior (que os olhos podem ver), mas explorando, com categoria, valores intrínsecos da alma humana. Não posso deixar de falar, também, da linda dedicatória que fez às pessoas mais importantes de sua vida! Parabéns! Quando eu crescer quero saber escrever. Será que tenho chances? Abraço, Rizza.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

GRINGA CRITICA OS POLÍTICOS BRASILEIROS

     GRINGA CRITICA OS POLÍTICOS BRASILEIROS

                                    Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas

Falando alto e com um sotaque de gringa, a mulher comentava as notícias dos desmandos praticados pelos políticos, no trato com a coisa pública.

Aproximam-se as eleições e a tal senhora, de certa idade, continua a tecer críticas  a um e outro governante, ataca diretamente a presidente da República e adverte à ouvinte: “é hora de acordar, o momento é este, se não for agora, não haverá outro.”

Todos no interior do ônibus estavam voltados para a conversa entabulada pela passageira gringa que não parava de falar sobre os nossos governantes e candidatos aos cargos públicos que enchem as ruas de cavaletes com fotos e frases de efeito, acreditando que, com isso, cativam o eleitor incauto.

Um dos passageiros, não se fez de rogado, tirou o seu celular do bolso e começou a gravar aquela conversa que ecoava por todo o coletivo.

Alguns fingiam que não estavam ouvindo, outros, em suas fisionomias, delatavam que consentiam com as alegações, às vezes impróprias e com uso de palavras de baixo nível.
                                                                  
Um arriscou uma interferência: “há outra candidata...”. Não completou a frase que foi interrompida pela voz esganiçada da gringa: essa tal, nem se vestir sabe.”

Chegou a hora daquela estrangeira descer. Ouviu-se um murmurinho pelos cantos do veículo. Comentários, prosseguindo na conversa iniciada pela passageira ou expressões de alívio, comemorando a retirada daquela que não se conforma com o estado de coisas que acontecem em nosso país que tiram o sossego e a segurança de todos nós.

Ficou, por fim, ecoando a frase para reflexão: “é hora de acordar, o momento é este, se não for agora, não haverá outro.”

                                                                 

                                                                  

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

UM ALVOROÇO DENTRO DO BUSÃO...

UM ALVOROÇO DENTRO DO BUSÃO

                                                 Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas
                                                
              O calor escaldante. Dentro do busão a temperatura, suponho, beirava os quarenta graus. Sem ventilador. As janelinhas escancaradas não adiantavam nada. As pessoas derretiam e como de costume, o veículo estava lotado.
              De repende, lá no fundo uma gritaria, mulheres subindo nos bancos. Outras pulavam histéricas.  Não era nada demais, apenas uma barata, quem sabe incomodada, também, com o calor, resolveu passear por entre os bancos do coletivo.
              Um valente pôs fim à balbúrdia. Tirou o sapato e numa pancada certeira estilhaçou a pobre da barata, lambrecando o assento e um grito se ouviu: eco, que nojo!
              Ninguém se atrevia a assentar-se naquele banco imundo, embora outro passageiro, tenha feito um limpeza nada muito bem feita, por sinal.
              Todos ali por perto, espantados, comentavam o péssimo estado de higiene daquele coletivo.
              - Será que esqueceram de fazer uma limpeza básica neste ônibus, a fim de evitar esse tipo de coisas!
              - Não é só isso, vejam os furos em alguns bancos e aqui o vidro está quebrado!
              - E percebam como o motorista conduz este veículo, parece que transporta animais. Um solavanco a cada instante, além de freadas bruscas. Coitados dos que viajam em pé!
              - Ufa! Mais um dia dentro de um transporte coletivo!
             
             

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O ÔNIBUS GRAJAÚ/SION (linha 2101) VIROU ESCOLAR! ?

                         O ÔNIBUS GRAJAÚ/SION (linha 2101) VIROU ESCOLAR! ?
                                             Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas*
                         Os moradores do bairro Grajaú não dispõem mais de ônibus para se deslocarem do bairro para o centro e vice-versa, porque o coletivo que servia à localidade foi convertido em ESCOLAR que transporta os inúmeros estudantes que frequentam as escolas, faculdades e cursos de línguas existentes na região.

                         Os alunos e suas mochilas ocupam todos os espaços do ônibus, não sobrando lugar para os moradores daquelas paragens. Eles devem se contentar, se quiserem tomar o coletivo, em irem em pé, em condições incômodas, isso quando conseguem um lugarzinho na condução, normalmente lotada.

                         As autoridades responsáveis pelo transporte público desconhecem essa realidade caótica, ou aparentam, por conveniência, desconhecer, porque não tomam qualquer providência para melhorar as condições desse meio de locomoção dos moradores do bairro.

                          Além disso, os atrasos dos ônibus são constantes e quando aparece um logo atrás surge outro, também abarrotado de gente em seu interior. Não existe um espaço mínimo dentro do coletivo destinado a cada passageiro? Parece que não, ou não se respeita esse mínimo, porque os motoristas permitem a entrada de pessoas sem qualquer observância de limites de espaços, transformando o interior do veículo em um amontoado de pessoas e suas mochilas, caixas, latas, malas e embrulhos de todos os tamanhos. Até pedaços de canos de PVC, de ferro, de trilhos de cortinas e outros objetos são carregados para dentro do veículo, colocando em risco a integridade física dos usuários.

                         Onde estão os fiscais do órgão de trânsito dessa concessão, para evitar esses abusos e descaso dos proprietários desses veículos? Isso para não falarmos das condições precárias dos bancos desses coletivos, muitas vezes imundos, rasgados e em péssimas condições de conservação e limpeza, sujando e até inutilizando as roupas dos que têm o raro privilégio de viajarem sentados.

                         E a falta de consideração e desrespeito ao passageiro não param por aí. Há motoristas que dirigem esses veículos mal conservados dando solavancos, freadas e arrancadas que obrigam os ocupantes que viajam em pé a se agarrarem em qualquer lugar para não serem arremessados, como objetos, de um lado a outro da condução, ou melhor, do lotação.

                       O nosso transporte de passageiros é uma vergonha. Como querem que troquemos o veículo particular pelo coletivo se não oferecem as mínimas condições de higiene e conforto que se deve esperar de um veículo que se presta a transportar pessoas em seus deslocamentos?

                     E como ficam aqueles que não têm veículo próprio para exercer o seu direito de ir e vir que deveria ser assegurado pelo Estado? Não lhes resta alternativa a não ser se sujeitarem a esse péssimo meio de transporte disponível.

Publicada no Jornal ESTADO DE MINAS, do dia 19 de setembro de 2012.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

BALANÇAR DE CABEÇAS

                             BALANÇAR DE CABEÇAS

                                                Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas

            Dei sinal. O ônibus parou. Entrei.
            Lá dentro me deparei com uma cena horripilante. Um balançar de cabeças. E os que assim se portavam estavam em pé e com fones de ouvidos.
            Uns balançavam as cabeças freneticamente, enquanto outros faziam movimentos leves e cadenciados.
            Alguns, assentados, também portando fones de ouvidos, além de balançar as cabeças, gingavam os troncos em uma movimentação constante.
            Os demais ocupantes do veículo assistiam aquilo pasmos e sem entender o que estavam vendo. Não se ouvia músicas, mas as cabeças e os troncos balançavam como se seguissem o ritmo de uma canção.
            Cada passageiro que entrava no busão se assustava e tentava entender o que se passava ali.
            Os que desciam transitavam por entre as cabeças que não paravam de balançar e em suas fisionomias se estampava uma interrogante, porque não sabiam a origem daquilo.
            A condução continuava no se trajeto e a cena tétrica dentro do coletivo continuava a estarrecer os que ali estavam, obrigados a presenciar esse cenário parecido com um episódio macabro que envolvia cabeças e troncos balançando.
            Chegou a minha vez de descer. Passei por entre as cabeças que balançavam e troncos que se contorciam e fiquei a cismar qual era a melodia que se ouvia naqueles ouvidos que traziam dentro de si os respectivos fones.
           
           

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A IDADE PESA

A IDADE PESA

                      Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas


                                               O ônibus para no ponto e começaram a subir os passageiros. O local oferecia dificuldades, porque a rua era em declive e o acesso à escada ficava muito distante do solo.
                                               Uma senhora idosa e obesa tentou subir. Quem estava dentro do ônibus a puxava para cima. Lá fora um resolveu dar uma mãozinha para introduzi-la no coletivo.
                                               Foi o maior sufoco. A dona fazia que ia depois voltava, ia novamente e quase que caia lá fora. O sujeito que a empurrava para dentro quase desistiu mas, felizmente, aquela senhora foi quase que jogada dentro do coletivo e logo, logo encontrou um lugar para se sentar ali perto da porta de entrada.
                                               As portas se fecharam e o busão seguiu o seu caminho, deixando em cada parada, no se trajeto pela cidade, os passageiros em seus destinos, sem maiores atropelos.


sábado, 5 de maio de 2012

GRITARAM: - ENTALOU !


GRITARAM: - ENTALOU!

                                               Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas


            A senhora um pouco avantajada, principalmente no quadril, entrou no ônibus. Custou a subir os degraus e dentro do coletivo se aproximou da roleta. Pagou a passagem e fez menção de passar. O agente de bordo (no meu tempo: trocador) a dissuadiu. Não precisava atravessar a roleta.

            A mulher ignorou a sugestão e tentou passar pela catraca. Todos dentro do ônibus se voltaram para aquela cena. Ela não se fez de rogada. Parece que não acredita que estava um pouco além do peso. Tentou mais uma vez ultrapassar a borboleta, mas o inevitável aconteceu: engastalhou. Um passageiro, que assistia à cena não se conteve e gritou: - entalou, vejam, a dona entalou. E agora?

            O busão estava lotado. Na próxima parada a porta se abriu e mais gente entrou. O motorista não conseguia fechar a porta, porque uma fila enorme se formou na entrada e as pessoas na parte da frente do coletivo se espremiam, porque aquela senhora, um pouco além de seu peso, estava presa na roleta. Não ia para frente e nem para trás. Cada vez que se mexia, gritava de dor e a roleta nem se movia.

            Um senhor pediu licença à senhora e, com todo o respeito, colocou as duas mãos nas ancas da infeliz e empurrou com toda a sua força. A passageira deu um berro e não adiantou nada. Estava fortemente agarrada à roleta.

            Um brincalhão, que sempre dá o ar da graça nessas horas, exclamou: - o jeito é chamar o Corpo de Bombeiros.

            Outro, na tentativa de ajudar, deu a infeliz ideia para a dona tentar se abaixar. Foi o caos. Ela se abaixou e, como estava acima do peso, as protuberâncias superiores a fizeram se prender mais à malfadada roleta.

            Nessa altura, a maioria dos passageiros pediu para o motorista abrir as portas do ônibus a fim de que todos descessem e o veículo fosse para o Corpo de Bombeiros ou para alguma oficina mais próxima, porque, gritavam alguns: - a solução é serrar a roleta. Não há outro meio.

            Após alguns instantes de sufoco e inúmeras tentativas de desentalar aquela passageira um pouco gordinha e teimosa, porque não faltaram conselhos para que não se aventurasse, tentando romper a roleta, o motorista irritado abriu as portas do coletivo e todos deixaram a condução, ficando somente o motorista, o trocador (agente de bordo) e a coitada da “entalada” que suava por todos os poros, por causa do grande esforço que fizera para se ver livre daquela horrível e constrangedora situação.

            O motorista fechou as portas e se dirigiu para o Corpo de Bombeiros, acatando as sugestões daqueles que presenciaram os incômodos instantes vividos por aquela mulher que, pelo excesso de peso, se viu entalada.